Terça-feira, 13 de Julho de 2010

Gravidez: uma oportunidade para romper com o abuso


O anúncio foi feito há um mês, num encontro em Coimbra, mas o tema volta hoje à ordem do dia, com a actualização dos dados do Observatório de Mulheres Assassinadas.

A secretária de Estado da Igualdade admitiu a possibilidade de o Governo vir a criar um rastreio nacional contra a violência doméstica exercida nas grávidas, ideia defendida num encontro sobre o tema, em Coimbra.

O despiste das situações através de um rastreio, nos serviços de saúde, foi preconizado por especialistas numa conferência sobre “Violência doméstica na gravidez”, organizada pela Maternidade Daniel de Matos, de Coimbra, e a ideia mereceu a acordo da secretária de Estado, Elza Pais.

“Levarei esta reflexão à ministra da Saúde, (um rastreio nacional) é uma das hipóteses, a necessidade de integrarmos de forma cada vez mais sistematizada e não apenas pontual, como tem acontecido, nas políticas de combate à violência doméstica”, disse a governante aos jornalistas, no final do encontro, o primeiro sobre esta problemática realizado em Portugal.

Elza Pais citou dados da Organização Mundial de Saúde que indicam que, em Portugal, entre 4 a 12 por cento das grávidas vivem situações de violência doméstica, e uma amostra realizada pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) que aponta para 9 por cento das grávidas vítimas do problema.

“O problema é muito antigo mas o conhecimento que temos dele é recente, têm de ser definidas políticas que o combatam de forma sistematizada e é seguramente isso que vai ser feito”, afirmou a secretária de Estado, que espera que o 4.º plano contra a violência doméstica contemple as preocupações manifestadas pelos profissionais no encontro.

Detetar as situações de violência doméstica sobre as grávidas é “ajudar a combatê-las e prevenir a saúde das crianças”, sustentou Elza Pais, alertando que “os profissionais de saúde têm, de facto, de aumentar a sua sensibilidade” para os casos.

Na opinião de Maria Cristina Canavarro, da Unidade de Intervenção Psicológica da Maternidade Daniel de Matos, a vigilância da gravidez pode ser “uma oportunidade para romper com situações de abuso, pelo acesso universal e frequente às equipas de saúde”, durante o período da gestação.

A violência na gravidez é normalmente a continuidade de situações já existentes, embora se verifiquem casos em que ela começa durante a gravidez ou já depois do nascimento do bebé, disse o médico psiquiatra João Redondo, coordenador do Serviço de Violência Familiar do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra.

O impacto da violência doméstica na grávida “é tal que as suas defesas imunitárias ficam fragilizadas”, alertou. Entre os riscos decorrentes da violência na gravidez estão a anemia da mulher, hemorragias, partos prematuros e bebés de baixo peso.

A dependência económica do companheiro, o desemprego e ter três ou mais filhos são questões que deixam a vítima mais vulnerável e incapaz de sair da situação, disse, por sua vez, Henrique Barros, da FMUP e coordenador nacional para a Infecção VIH-Sida.

Fonte: Agência Lusa/DESTAK