
Alguns emigrantes vêm a Portugal e evitam falar português. Dá-lhes gozo e Status. Sentem-se importantes. Mas quando toca ao vernáculo optam sempre pela língua materna. Foge-lhes o pé para o chinelo tuga.
Não sou um daqueles falsos pudicos que se arrepia quando ouve um palavrão e que por isso não diz asneiras, porque é feio e mais não sei o quê. Pelo contrário. Gosto de um bom palavrão. Acho até que quando proferido na hora, momento e local adequados, pode ser profundamente libertador e proporcionar uma verdadeira sensação de bem-estar. Um F%&$&- $% dito com alma e sentimento em certas situações pode ser profundamente terapêutico. E a palavra "porra" dita espontaneamente é provavelmente a melhor forma de mostrar espanto que conheço.
Agora confesso que me faz alguma confusão ver alguns emigrantes portugueses virem para cá falar a língua oficial do país onde trabalham, residem e pagam os seus impostos, e só se lembrarem que nasceram na Leirosa ou em Pegões quando abrem a boca para dizer asneiras. E mais estranho se torna quando sabemos que eles adoram falar português quando estão fora de Portugal. Um sinal de orgulho patriota dizem eles...
Se de facto este orgulho que apregoam é genuíno custa-me entender que mal estacionem o Mercedes aqui na terrinha desatem a falar Francês ou outra língua qualquer. Ou o português não serve para ser falado em Portugal?
Escrevo isto porque tenho aqui na praia a escassos metros uma família de portugueses emigrada em França que está neste momento a correr atrás de uma bola, ou ballon, pardon. O engraçado é que não lhes tinha ouvido uma única palavra em português até um deles ter a "malchance" de falhar um golo de baliza aberta. Aí saiu logo um "Fod#(&-se Jean Filipe. Hoje não acertas uma Car$($". Noutra ocasião, após uma entrada um pouco mais viril por parte de um dos jogadores, este foi imediatamente apelidado "grande Cabr/&".
E quando a bola veio ter comigo, imobilizando-se junto à toalha onde estou deitado a descrever estas barbaridades, numa das vezes em que o tal "Cabr$&" de nome Fábio não a conseguiu dominar junto à linha lateral imaginária, um dos senhores já com alguma idade virou-se para o neto, um miúdo de 4 ou 5 anos a quem eu entretanto havia devolvido a bola, e disse-lhe "Ruben Michel, diz merci ao senhor". Eu disse-lhe "obrigado Ruben, mas eu sou português". O miúdo pareceu não ter percebido, encolhendo os ombros agarrado ao ballon.
Sinceramente, não estou a ver um grupo de romenos ou chineses, mesmo que residam em Portugal há 20 anos, deslocarem-se à sua terra natal e andarem por lá a falar português, deixando o romeno ou mandarim em aberto apenas para quando a boca lhes fugir para a bacorada. Por este facto, acho que este tipo de comportamento é um fenómeno exclusivamente tuga. E revela um enorme complexo de inferioridade em relação a outros povos. Quanto a mim, tão descabido quanto misterioso e inexplicável.
Crónica de Tiago Mesquita/EXPRESSO