Quinta-feira, 23 de Setembro de 2010
Cuidados Continuados: afinal, para quem?
Demoras nos processos para colocação de utentes nas Unidades de Cuidados Continuados estão a prejudicar as Misericórdias.
As santas casas de Misericórdia que detêm a seu cargo unidades de cuidados continuados têm enfrentado alguns problemas relativamente à sua sustentabilidade financeira. Isto porque, os processos de internamento de alguns utentes que pretendem esse serviço tendem a ser demasiado longos. Este foi um dos assuntos tratados na reunião dos conselhos distritais das Misericórdias de Bragança, Aveiro, Braga, Porto, Viana do Castelo e Vila Real, que decorreu em Vila Flor no passado dia 18.
“Sentimos dificuldades na ocupação das camas das Unidades de Cuidados Continuados. Muitas vezes temos as camas vagas”, referiu Victor Costa, presidente do Secretariado Regional de Bragança da União das Misericórdias Portuguesas.
Muitas famílias requerem esse serviço, as camas estão vagas, mas o processo burocrático que resulta no internamento dos idosos é considerado muito demorado. Isto coloca dificuldades às Misericórdias, que têm de pagar ao pessoal das Unidades, que tem de ser, em modo geral, mais qualificado, relativamente ao de outros serviços. Isto, além dos gastos com equipamentos necessários ao funcionamento de uma unidade de saúde, também superiores aos gastos com outros serviços. “No final do mês as Misericórdias têm de pagar aos funcionários, têm de pagar os gastos inerentes à Unidade, nomeadamente valores muitos elevados na manutenção”, afirmou Victor Costa.
Por outro lado, algumas Misericórdias estão ainda a pagar empréstimos que contraíram para construção dessas Unidades. Isto porque, em muitos casos, a comparticipação do Estado, através do Programa Saúde XXI, não chegou a 50 por cento da maioria dos investimentos que foram necessários para construção das unidades de Cuidados Continuados.
Segundo Victor Costa, verificam-se ainda atrasos nos pagamentos das comparticipações da Administração Regional de Saúde pelos utentes internados nessas unidades, o que gera outra dificuldade financeira.
Este problema vai ser colocado pela União das Misericórdias ao Governo. Recordamos que a prestação de cuidados de saúde foi uma das primeiras valências das Misericórdias, quando sugiram há 500 anos. Depois do 25 de Abril os serviços de saúde à maioria da população passaram a ser competência do Estado e muitos dos hospitais das Misericórdias foram encerrados ou nacionalizados. A mais recente reforma dos cuidados primários de Saúde, que conduziu ao encerramento de muitos Serviços de Atendimento Permanente nos Centros de Saúde, traduziu-se também na criação das Unidades de Cuidados Continuados, nas Misericórdias, destinados a albergar pessoas que carecem de cuidados de saúde permanentes, pessoas acamadas, com doenças crónicas. Esse serviço passou a ser prestado, novamente, pelas Misericórdias que, em muitos casos, adaptaram antigos edifícios onde antes funcionavam os seus hospitais. Noutros casos as unidades foram construídas de raiz.
Lares antigos têm de ser requalificados
Outro dos assuntos tratados na reunião foi a necessidade de o Estado apoiar a requalificação de alguns lares de idosos de modo a obedecerem às exigências actuais. As Misericórdias pretendem uma linha de crédito para efectuar essas obras. As remodelações implicam, em muitos casos, a redução do número de camas por quatro. As exigências actuais implicam que os quartos passem a ser apenas para dois utentes, no máximo. Isto faz com que muitos lares passem a carecer de obras de ampliação para albergar todos os seus utentes.
Fonte: Mensageiro de Bragança/Ana Preto
